quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Quando eu era pequeno


Quando eu era pequeno, pensava que o mundo inteiro era meu.
Sabia que outras pessoas o habitavam, mas acreditava que tudo girava ao redor do meu próprio nariz.
Eu era menor, eu era mais jovem e eu era imune a tudo. Nenhum mau que existia no mundo podia me atingir, pois eu era o dono de todas as verdades.
Eu vivia feliz sem me preocupar com as coisas e com o pouco que me preocupava, eu nem ligava tanto ou se tornavam meras brincadeiras. Era tão bom chegar em casa e não pensar o que se tem pra fazer, apenas escolher entre comer, dormir, ver TV e sorrir.
Quando eu era pequeno eu podia ter tudo: material escolar cheirando novo todo ano, almoçar uma comida com gosto de mãe e sair com os amigos nos melhores finais de semana. Era um mundo só meu.
Quando eu era pequeno, havia apenas algumas pessoas maiores do que eu. Essas pessoas formam um grupo de pessoas denominado família, no qual no fundo eu nunca os entendia, pois quando eu queria ser grande, me diziam que eu ainda era pequeno, e quando de fato eu agia como pequeno, elas falavam que eu já estava bem grande. Simples assim: tão difícil entendê-las quanto eu tentar explicar-me.
A verdade é que quando eu era pequeno eu jamais queria ser o mais novo.
Parece que todos cresciam e só eu não. E por isso sempre me restava as piores tarefas: “Atende a porta” era o que eu mais ouvia; “Tira a toalha molhada da cama” era todo santo dia, e “Joga a roupa no cesto” era o que eu mais devia. Estas eram só algumas delas. Contudo, chegava os meus dias de revolta. Os dias em que eu pensava em como me defender de todas aquelas obrigações.
Começava tirando notas baixas, outrora indo a festas sem avisar e voltando tarde, além de fingir não escutar o telefone tocar e terminar qualquer conversa com as seguintes palavras: “Eu quero”. Para mim era satisfatório, para eles fazia mal. E adiantava por um tempo, mas depois voltava ao normal.
Quando eu era pequeno eu também pensava que já sabia de todas as coisas e as que eu não tinha aprendido achava que nunca iria precisar usá-las. Pra que aprender fórmula de Báskara? Eu nunca precisarei disso! Pra que aprender gramática? Ninguém fala assim certinho. Meu melhor professor particular era eu mesmo e ninguém sabia disso.
Mas apesar de ser autodidata na escola e de ver o mundo sempre por cima, eu precisava de uma ajuda pra pegar algo lá no alto. Não que eu não pudesse pegar uma cadeira ou uma escada, mas é que eu queria aproveitar aquele momento. De ter alguém em quem confiar, pedir uma ajuda ou fingir mandar. Pois foi assim que eu comecei a perceber que eu estava crescendo.
Na realidade, mudou quando eu percebi que as pessoas me levavam muito a sério, sempre esperando outras atitudes em meu comportamento. Mesmo que eu tivesse ganhado alguns centímetros, mudado o número do calçado ou o penteado, eu já não era menor do que ninguém. Era só uma questão de data de nascimento, mas o tratamento que eu recebia era o mesmo de uma pessoa mais velha. E pude comprovar essa história quando via aquele parente distante dizendo “Nossa, como você cresceu”. Pronto. Eu já não era mais aquele pedaço de gente. O mundo não era mais meu. Agora eu precisava dividi-lo com uma porção de gente que um dia eu tanto quis ser igual. Mas isso acabou se dando de forma natural. E a cada ano que passa eu me sinto mais distante desse tempo em que eu era pequeno, afinal se os anos vem pra todo mundo, não seria diferente pra mim que pensava que pra sempre seria criança um dia.
Mas de todo esse “quando eu era” é possível tirar algo mais valioso ainda, que é o que sou. O quanto ser pequeno me tornou o que sou hoje. Alguém que não cabe no próprio tamanho, de tantos sentimentos, tanto sonhos e tanta vontade de viver. Esta é a maior parte de mim. Por fim, quando eu era pequeno eu sempre tentava imaginar como era ser grande. Mas hoje eu descobri que o melhor não está em passar o tempo e me tornar alguém maior ou mais velho atingindo a fase adulta, mas sim em continuar sendo alguém que conserva a juventude em tudo aquilo que faz e cria. É difícil explicar como fazer isto, mas acho que somente de uma forma seria possível. Tipo assim: se eu voltasse a ser pequeno e alguém me perguntasse o que eu queria ser quando crescer, eu diria. “Quero ser pequeno”. E o por quê? Porque esta é a única forma de continuar crescendo.