quinta-feira, 26 de novembro de 2009

LAPSO #01 - Parte II

Assim fiquei a observá-la e neste meio tempo de algum ângulo eu pude entrar em seus olhos. Eram escuros, mas sua visão era clara. Estava a garota atenciosamente a contar os losangos do tapete. Realmente haviam várias formas deles, bordados, cores padrão e todos lado a lado sem se cruzarem. Parecia uma espécie de programa na TV onde assistimos sem piscar. Mas ai percebi que seus olhos apenas se concentravam naquele tapete, enquanto sua mente percorria por outras direções. Confirmei que de forma alguma pensava como o tapete fora produzido, se custou caro ou se no final o número de losangos seria par ou ímpar. Sua cabeça estava em outro lugar onde cabia qualquer sentimento, menos um tapete de centro de sala.
Suas mãos agora não transpiravam mais, porém suas pernas tremiam inquietas. Seu rosto levantou e eu fui pro fundo. Por trás do olho haviam lágrimas contidas. Mas já não se esperava que saissem dali pois elas já não ganhavam mais força.

Recentemente ela estava a mais de uma semana sem ir na escola, chorando todo dia, comendo pouco e um mês sem sangrar. Seria normal se ela estivesse mais de uma semana comendo bem, indo a escola todo dia, sangrando pouco e um mês sem chorar. Mas não havia essa opção. Estava tudo invertido, assim como seus pensamentos que não faziam mais nenhum sentido. Apenas permanecia desorganizado enquanto eu me sentia extremamente ocupado e via que sua cabeça estava coberta de se’s quando eu na verdade já sabia que o “se” era certeza. Afinal seu fluxo menstrual nunca atrasava. Aquelas noites que ela passara ausente de si foram determinantes para condição atual. Conversar com seu parceiro pouco adiantava; era como contar para um cego que a luz está acesa – você não pode ver mas pode acreditar, pois sente. E este sentimento ela já tinha.